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Brogue
linhas orientadoras para te perderes. e contra o desperdício

06/06/2007 GMT 1

ontem, fui ao parque de campismo

patica @ 11:42

e até podia haver nada para dizer se não fosse o caso do parque de campismo, especialmente os da Costa (que é a Costa da Caparica, para quem não é da zona e não percebe), estarem arrumados num cantinho da minha infância e pré-adolescência por causa de acontecimentos tão importantes como ter devorado os meus primeiros livros. Fora do campismo, lia. No campismo, engolia-os. Inteiros. Literalmente: à razão de um ou, até, um e meio por dia. Lembro-me que ainda sobrava tempo para fazer as minhas refeições, ir à praia, fazer os jogos e os disparates próprios da idade com os amigos de Verão, ditar textos à minha avó, apostada em passar a escrever sem erros e, ainda, andar à bulha com o meu irmão mais novo que começava a ficar mais alto do que eu e a querer impor-se. Havia tempo para tudo.

Na época, e sublinhe-se que falo de há 20 anos, a televisão ainda só tinha chegado ao café do parque de campismo, onde era comum as famílias reunirem-se para assistirem ao telejornal e à telenovela (no tempo em que só passava uma). Há dois meses, nas localidades de São Tomé, também encontrei disto - as pessoas juntas à frente do televisor da aldeia, um aparelho sem ecrã plano ou som surround, mas com uma imponência que já não é habitual encontrar-se. Ali, a televisão tem honras de Deus e é arrumada numa espécie de altar comunitário, construído bem no centro da localidade, para proteger a única janela com vista para o resto do mundo apesar de, por lá, o mundo se apresentar quase sempre com sotaque made in Brasil. Em África nem se discute a importância deste aparelho para a vida das pessoas. Lá continua simples: novos mundos trazem novas esperanças e novas perspectivas. E portanto é bom.

No Parque já há uma televisão por cada alvéolo (pois, é verdade, está errado mas eu esqueci-me do nome certo das unidades de terreno onde cada família instala as férias e os fins-de-semana), e vários canais por cada televisão. Os hábitos dos campistas tornaram-se menos comunitários. Epááááááá

..estava a ler isto e soou-me a Ferreira Fernandes. Merda, já tenho memória. Sublinho factos de há 20 anos. Outravez merda.

16/05/2007 GMT 1

hoje, pediram-me para não pensar

patica @ 17:32

 só que eu não sei como é que isso se faz.

aliás, foi por isso que finalmente me resolvi a criar um blog, depois de andar há mais de meia década a vê-los nascer à minha volta.

Tudo começou há cerca de nove meses com as aulas de ioga. sempre que entrávamos na meditação a professora pedia para esvaziar a cabeça, atentar na respiração, sentir a ligação à terra, como se nos tratássemos de árvores. dava-me  para ficar a meditar na vida, porque era para aí que o silêncio me levava. nunca consegui esvaziar-me. Pensei que se praticasse muito, alcançaria esse nirvana, a cabeça cheia de nada. explicaram-me, noutras circunstâncias, que o meu problema é falta de espontâneadade e de tomates para deixar que os meus instintos também tenham voz.

e até a escrever eu sou assim. não me lembro de um texto que tenha ficado tal e qual como o havia pensado no princípio. escrevo e reescrevo e reescrevo e reescrevo até o considerar perfeito ou estar já tão farta de letras que tenho mesmo de o largar.

e eu não sei agir por impulso, não estou conectada comigo, ligo de mais aos estímulos exteriores mas há muito que caminho com esta certeza - preciso de praticar os meus instintos, perceber de que massa sou feita.

O brogue é um exercício desses. e juro que este nome, que admito ser muito estúpido, foi o que me ocorreu. não faço ideia porquê mas foi o que me saíu. e como é tão estúpido, acabo eu por inevitavelmente reconhecer mais tarde, ando desconfiada que esta foi uma forma que eu arranjei para me defender de mim própria porque aprendi a não gostar do que saía daqui sem controlo. desde criancinha que eu, tal e qual como sou, sou dada a problemas.

e agora que sou uma mulherzinha, tenho de aprender a saber viver com o que quer que seja que saia daqui, só porque tenho de reconhecer que é isso que eu tenho e é isso que há. eu sou coiusas como brogue e uma pedalada nos dcedos que não sei paras que é que serve se acabo sempre por apagar tudo e reescrever de forama mais ponderada. mas juro que desta vai com erros e tudo porque eu não vou ler. sói depois de publicar.

e isso mete cá um medo. descobrir que se calhar não somos suficientes para todos os sonhos que cresceram connosco,

não é?

10/05/2007 GMT 1

...

patica @ 18:28

se-eu-fosse-um-raio.jpg

  Se eu fosse um raio

tchan tchan tchan tchan

patica @ 18:19

truca, truca, truca

fui de pouca-terra, pouca-terra à pum, pum, pum.

matei um piu-piu que tumba no chão no primeiro terrá-tá-tá que mandei para o ar.

o ão-ão foi buscá-lo.

02/05/2007 GMT 1

Trigo limpo

patica @ 18:23

- Queres mamão?

- Só se for com limão.

- Não há.

- E banana?

- Está podre.

- Então não quero.

- Preferes morangos?

- Há chantilly?

- Não. Nem açúcar.

- E amarguinha?

- Só favaios.

- Então não.

- E se for laranja?

- São da Baía?

- Não sei, não trazem autocolante.

- São grandes e gordas e com umbigo?

- Enchem-me a mão.

- Então são.

- Queres que leve?

- Só quando perceber quem é que está a falar.

- Acho que agora sou eu. Ou serás tu?

- Sei lá isto já está tudo trocado.

- Não te disse, não te disse. Tinha sido melhor se tivesses usado as nossas iniciais.

- Mas são as mesmas: Pedro e Paula.

- Hei, essa era a minha deixa. Estás na minha vez.

- Desculpa, não sei para onde ir, estou a sentir-me totalmente deslocado. O que é que eu faço?

- Nada, agora não faças nada. Eu levo-te a fruta...

- E eu respondo. És um génio.

- E passa a usar qualquer coisa como Pa e Pe.

- Ok. Traz lá, então.

- O que é que era?

- Laranjas da Baía.

- Ah.

Pa: Toma a fruta, pá.

Pe: És uma fofa.

castanho como chocolate

patica @ 18:04

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As bolhas são de fazer água na boca.

Há dias cinzentos

Não é?

Torná-los castanhos é assumir o vazio de emoções.

Isto ajuda?

Há um mês conheci uma senhora castanha

Que acabei de rever na televisão.

A notícia sublinhava uns 81 anos muito lúcidos

Três quartos 

A tentar provar

Que castanho

Poderia ser sinónimo de falta de oportunidades

Nunca de capacidades.

Hoje

Faltam-lhe os dentes da frente

Orgulha-se e abusa das túnicas africanas

Faz questão de deixar a carapinha branca desmanchar-se com o vento

Porque fica fresca

E genuína.

Na pele castanha

Entranhou-se a certeza das falhas dos humanos

Elevaram-se convicções que saíram deste plano

E ditaram:

As vidas dependem das cabeças

As cabeças das culturas

As culturas da Liberdade.

Ou seria das liberdades?

 E ditaram:

O valor maior é o potencial humano

O potencial humano é dono do futuro

O futuro está tramado

Se o potencial continuar bêbedo.

São Tomé, outra vez

27/04/2007 GMT 1

país do leve-leve

patica @ 19:59

principe-443.jpg

crianças do Príncipe, a caminho da torneira

(para ler com uns batuques de fundo)

patica @ 19:42

 

 

Qu’é poemas? Ou português 

Hoje

Molhei uma chuva, pá.

tava em Sã Tomé

Caí num trovoada

Molhei uma chuva, pá

Fiquei que nem pinto

E fugi para a tua beira. 

Era para me salvares 

Fique por lá,

Sossegadita,

Não queria incomodar.

Falaste-me do Sol

Que era de ouro

E gostava de ritmo. 

Dançámos

Um danço-congo,

Com inhá de Sã Tomé

Até bazares para Luanda,

Onde acabaram de inaugurar

O primeiro mega chópingue do país. 

Eu continuo na molha,

Arranjando unha dji pirua portuguesa,

Pê da vida com essas tempestadji.

Queria ir no Brasiu

Visitá papai e mamãe na Baía.

Voltá a acreditá no Carnavau. 

Declinei as lantejoulas,

preferi o teu sol

Que era quente,

Um aconchego.

Dei-te um cóle,

Antes de ir iogar.

Não atendeste e – juro –

Molhei-me.

Desta vez,

Molhei-me. 

Sem uma gota de chuva. 

Li à Tita

Porque quero que aprenda.

A Tita que escreve afrente em vez de à frente,

Não quis chorar.

É que é muitos nervo, muitas confusão,

Não entende nada, eu não sei, é sim, é sim, sim.

Fui.

A Tita tocou no assunto mais tarde.

Para dar conselhos,

A minha cara andava a pedi-las,

De olhos amolgados pelas lágrimas

E nariz inchado, a deitar molho transparente.

‘Tava molhada. Toda molhada.

Sinhá conta as lágrima de novo. Leve, leve

Eu contei as minhas lágrimas, uma a uma, tintim por tintim. 

Entendeste?

Cacao ué. Cacao ué.

Qu’é? Onde foi sinhá? Dêusué

‘Tou aqui. A escrever um poema.

Achas que é? 

Os dentes brancos da Tita são tão brancos, tão brancos, que ofuscam

 todas as nuvens negras. Os dentes brancos da Tita são esperança e são

sabedoria, por se manterem tão brancos no meio da terracota. A Tita tem

este costume, mostrar os dentes brancos,

sempre que pressente que, por perto,

há gente molhada,

a tilintar os dentes podres de boca fechada.

TABACARIA

patica @ 18:08

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Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Gênio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, E a história não marcará, quem sabe?, nem um, Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. Não, não creio em mim. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim... Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando? Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas - Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -, E quem sabe se realizáveis, Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, Ainda que não more nela; Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades; Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, E ouviu a voz de Deus num poço tapado. Crer em mim? Não, nem em nada. Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo, E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. Escravos cardíacos das estrelas, Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordamos e ele é opaco, Levantamo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira, Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

álvaro de campos

26/04/2007 GMT 1

topografia do brogue

patica @ 19:22

jaleporto-alegre-pv-048.jpg                  O Brogue existe para explorar a espontaneidade e todas aquelas coisas que acontecem sem controlo ou análise. A ideia é despejar tudo e qualquer coisa que apetecer, só porque sabe bem e apetece. E pensar nisso depois de registar. Mas SÓ mesmo DEPOIS DE REGISTAR.

 

 

Por aqui, promete-se:

 

poesia, prosa, ficção, estórias e histórias, guiões, curtas, mensagens, frases fortes, palavras tão decididas que é imperdoável ainda não existirem, tiradas geniais, conversas de café, imagens reais, filmes animados sempre que possível, directos, registos que ficarão na História, letras garrafais, gritos que andavam impedidos, cores, texturas, animais que são amigos, oxigénio purificado, folhas a fotossintesar, flores exóticas, moitas, paz e agitos, perlimpimpins, estrelas, caras bonitas, Primavera, folhetins radiofónicos em formato impresso, chamadas de capa, fotocópias, relíquias, literatura de cordel, receitas de compotas de fruta, exercícios de ioga, fotonovelas, conselhos práticos, conselhos menos práticos mas também muito úteis, paisagens verdejantes, chás esquisitos, céu azul, águas límpidas, provocações inusitadas, fórmulas para a auto-estima, vida real, fotos reais, bilhetes, produções pouco calculadas, bilhetinhos, notas breves, passarinhos nas árvores e, ainda, alguma paciência para ouvir e escrever disparates.

 

Já volto.

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