ontem, fui ao parque de campismo
e até podia haver nada para dizer se não fosse o caso do parque de campismo, especialmente os da Costa (que é a Costa da Caparica, para quem não é da zona e não percebe), estarem arrumados num cantinho da minha infância e pré-adolescência por causa de acontecimentos tão importantes como ter devorado os meus primeiros livros. Fora do campismo, lia. No campismo, engolia-os. Inteiros. Literalmente: à razão de um ou, até, um e meio por dia. Lembro-me que ainda sobrava tempo para fazer as minhas refeições, ir à praia, fazer os jogos e os disparates próprios da idade com os amigos de Verão, ditar textos à minha avó, apostada em passar a escrever sem erros e, ainda, andar à bulha com o meu irmão mais novo que começava a ficar mais alto do que eu e a querer impor-se. Havia tempo para tudo.
Na época, e sublinhe-se que falo de há 20 anos, a televisão ainda só tinha chegado ao café do parque de campismo, onde era comum as famílias reunirem-se para assistirem ao telejornal e à telenovela (no tempo em que só passava uma). Há dois meses, nas localidades de São Tomé, também encontrei disto - as pessoas juntas à frente do televisor da aldeia, um aparelho sem ecrã plano ou som surround, mas com uma imponência que já não é habitual encontrar-se. Ali, a televisão tem honras de Deus e é arrumada numa espécie de altar comunitário, construído bem no centro da localidade, para proteger a única janela com vista para o resto do mundo apesar de, por lá, o mundo se apresentar quase sempre com sotaque made in Brasil. Em África nem se discute a importância deste aparelho para a vida das pessoas. Lá continua simples: novos mundos trazem novas esperanças e novas perspectivas. E portanto é bom.
No Parque já há uma televisão por cada alvéolo (pois, é verdade, está errado mas eu esqueci-me do nome certo das unidades de terreno onde cada família instala as férias e os fins-de-semana), e vários canais por cada televisão. Os hábitos dos campistas tornaram-se menos comunitários. Epááááááá
..estava a ler isto e soou-me a Ferreira Fernandes. Merda, já tenho memória. Sublinho factos de há 20 anos. Outravez merda.

Do Melhor
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